Por Sâmia Gabriela Teixeira e Maura Silva
Já dizia o escritor árabe Edward Said sobre os perigos do orientalismo
na construção – ou melhor, desconstrução - da visão sobre a cultura
oriental e a história dos árabes e muçulmanos. Não por acaso, o
orientalismo surgiu com força na época de maior expansão da dominação da
Europa e Ocidente no Oriente, quando no período de 1815 a 1914 o
colonialismo direto europeu cresceu cerca de 35% para 85% em todo o
mundo, de acordo com estudos de Harry Magdof, publicados em seu livro
“Colonialism”, parte da 15ª edição da Enciclopédia Britânica de 1974.
Seguindo o padrão ocidental previsível, o comentarista Arnaldo Jabor,
que atualmente tem sua coluna fixa na rádio CBN da Globo, no dia 2 de
outubro descreveu o povo árabe como “parasita do Ocidente” e líderes
religiosos como “canalhas” que se aproveitam da fé de um povo que “não
tem nada a não ser Allah”.

Não é nenhuma surpresa que um canal da grande imprensa utilize tais
elementos para falar sobre o Oriente, mas é necessário que outros meios
busquem esclarecer as desinformações veiculadas na mídia para que o
lugar comum não ganhe status de opinião de “especialista” e que desta
maneira deturpe realidade e história de outra cultura.
Logo no início do discurso de Jabor, os primeiros comentários já
revelam falta de conhecimento ao dizer, em tom negativo e presunçoso,
que os árabes vivem hoje na Idade Média. Fica claro que o comentarista,
além de analisar muito superficialmente a atual situação do mundo árabe,
ignora o fato de que no período medieval a Europa – dita por ele como
tão avançada e civilizada - era formada por diversas cidades cercadas
por muralhas e governadas majoritariamente por senhores feudais que se
orgulhavam de não saber ler. Neste mesmo período, sobretudo entre os
séculos IX e X da era cristã, a civilização muçulmana compartilhava da
mais desenvolvida sabedoria filosófica e científica na Espanha, Itália e
Sicília, enquanto regiões da Europa, “vítima do parasitismo árabe” nas
palavras de Jabor, apenas a partir do século XI firmava suas primeiras
tendências científicas, quando bispos passaram a autorizar traduções
para o latim de importantes livros de autores... árabes – pasmem!
Durante os séculos XII, XVIII e XIV, o trabalho dos tradutores não cessou, pondo em latim não só a Rhazés, Albucassis, Avicena, Averróes, mas também autores gregos, como Galeno, Hipócrates, Arquimedes e Ptolomeu, que os muçulmanos haviam vertido em sua própria língua (…) O fato é que a Idade Média só conheceu a antiguidade grega depois que esta passou à língua dos discípulos do Profeta (…) Sim, deve-se aos árabes o conhecimento da antiguidade; mas não aos curandeiros da Idade Média, que até o grego ignoravam; e por isso, devemos àqueles uma gratidão eterna por nos terem salvado tão precioso tesouro. “Apagai os árabes da História – disse Libri – e o renascimento das letras tardará muitos séculos na Europa”.
(KURAIEM Mussa, 1962)
Em relação à religião, dramatizada no comentário de Jabor e julgada de
maneira irresponsável e limitada, o Islã mostrou-se uma das crenças mais
tolerantes da história, e o comentarista ignora o fato de que se hoje
há os fundamentalistas, boa parte – senão total parte - da
responsabilidade pela existência de tais grupos é exatamente devida ao apoio político, interesse geopolítico e comercial, e também aos meios de comunicação e discursos propagandistas do Ocidente, que muitas das vezes desenha o fundamentalismo na luta legítima do povo contra a opressão e exploração das grandes potências.
responsabilidade pela existência de tais grupos é exatamente devida ao apoio político, interesse geopolítico e comercial, e também aos meios de comunicação e discursos propagandistas do Ocidente, que muitas das vezes desenha o fundamentalismo na luta legítima do povo contra a opressão e exploração das grandes potências.
Ainda que tudo isso seja discutido entre sérios profissionais
historiadores e cientistas políticos, os estudos de Edward Said sobre o
orientalismo ganham a confirmação de que o conhecimento domesticado no
Ocidente produziu um discurso científico capaz de “legitimar
uma autoridade sobre o Oriente”. Isso porque, afinal de contas, aparenta
que tal opinião do comentarista em relação aos radicais árabes é
utilizada apenas como gancho para outras ofensas que ele rasga na
sequência, sobre, por exemplo, o fanatismo dos que queimaram bandeiras
dos “Estados Unidos, Europa etc”. Ora, é por aí também que se explica a
falta de fundamento ao afirmar que hoje os árabes são atrasados e
“parasitas” do Ocidente. Fato é que hoje o Oriente Médio sofre
consequências da influência direta da “civilização” ocidental.

Obviamente, diante de tal exploração de recursos naturais nos países
árabes, essa região não mais conseguiu recuperar um equilíbrio próprio.
Segundo o professor de Ciências Políticas Dejalma Cremonese, da
Universidade Federal de Santa Maria – RS, os britânicos destruíram o
sistema industrial instalado nas regiões da Índia controladas por eles,
impondo, a partir do século XVIII, “duras leis tarifárias para impedir
que os produtores industrializados indianos competissem com a produção
têxtil dos ingleses”. Em seu estudo “Reflexões sobre a democracia e o
terrorismo de estado na velha e nova ordem mundial”, Cremonese ressalta
que tal modelo do “progresso” que a civilização ocidental buscou
instalar no oriente – e o qual Jabor cita com orgulho - é responsável
pela morte de “cerca de meio milhão de crianças a cada ano na África, em
consequência do serviço da dívida externa, simplesmente em consequência
dos juros que seus países precisam pagar”. E o comentarista ainda fala,
esperançosamente, numa possível influência “do progresso do lado de
cá”? Com tal fala, nos perguntamos: a nossa democracia ocidental atual
possui alguma superioridade em relação aos modelos políticos orientais?


A história recente da Argélia é exemplo do que uma sociedade “avançada e
democrática” é capaz de fazer com um país. Invadida pela França no
século XIX com o pretexto de construir colônias agrícolas e militares, os franceses minaram a resistência nativa, destruindo a agricultura árabe com uma violência que não poupou mulheres nem crianças. Segundo artigo de Rosangela Rosa Praxedes, Bacharel em Ciências Sociais pela USP, publicado na Revista Espaço Acadêmico, “o governo de Napoleão III foi marcado por uma forte militarização na Argélia e quebrou o sistema de propriedade tribal nativa, fixando árabes e berberes em minifúndios e aumentando a miséria dos agricultores.” Assim é fácil dirimir que anos de colonização imposta por estrangeiros em nome da superioridade maciça coberta por dogmas sociais, étnicos e culturais, reafirmada ano a ano através da violência, seja passiva de “atraso”.
O mesmo acontece com o Líbano, mesmo após a sua independência - conquistada em 1941, ainda tido como criação da potência colonial francesa. Fato é que a crescente escalada de violência espraiada pelo país, e que em nada contrasta com o seu passado recente de violências e abusos, é fruto de anos de opressão e tirania causada pela ocupação estrangeira. Talvez seja justo refletir acerca do modelo de colonização do Oriente Médio que durante toda a sua história teve a maior parte do seu território ocupado por potências que hoje julgam o seu retardamento, afinal, é bem provável que o “atraso de milênios” seja o reflexo de uma grande “indelicadeza histórica”.Fonte:
http://www.uniaoislamica.com.br/index.php?r=noticia%2Fview&id=969